22.6.09

"Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua."

João do Rio
do livro maravilhoso A alma encantadora das ruas

16.6.09

"As contradições do corpo

Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.

Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revolver de assustar,
tornou-se meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.

Meu corpo apaga a lembrança
que eu tinha de minha mente.
Inocula-me seus patos,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos.

O seu ardil mais diabólico
está em fazer-se doente.
Joga-se o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revulsão.

Meu corpo inventou a dor
a fim de torná-la interna
integrante do meu Id,
ofuscadora da luz
que aí tentava espalhar-se.

Outras vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas células impregna,
do meu mutismo escarnece.

Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que não quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor do meu Eu
convertido em cão servil.

Meu prazer mais refinado,
não sou eu quem vai senti-lo.
É ele, por mim, rapace,
e dá mastigados restos
à minha fome absoluta.

Se tento dele afastar-me,
por abstração ignorá-lo,
volta a mim, com todo o peso
de sua carne poluída,
seu tédio, seu desconforto.

Quero romper com meu corpo,
quero enfrentá-lo, acusá-lo,
por abolir minha essência,
mas ele sequer me escuta
e vai pelo rumo oposto.

Já premido por seu pulso
de inquebrantável rigor,
não sou mais quem dantes era:
com volúpia dirigida,
saio a bailar com meu corpo."

Drummond

8.6.09

"Acordar não é de dentro
Acordar é ter saída"

João Cabral de Melo Neto
"Não fique triste, filho. Que tudo isso é um engano. Não é o morrer que é para sempre. O nascer é que é para sempre".
...
"o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida".

Do Mia Couto, no livro Chuva Pasmada
Postado por Ana Paola, que mais uma vez trouxe um pouco mais de carícia. até na pergunta pelo layout. rsrs
não vejo problema algum em recortar e colar
quando não sei uso mais
mas usar é fazer sabido
pensei assim

6.6.09



imagem linda do artista jcarlos
ele é genial

24.5.09

"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório."

Chico
Leite derramado.
"Temos, permito-me dizer, um defeito - sempre tratamos de colocar o novo a partir do já sabido, enxertar o que não se entende dentro das coordenadas clássicas - por meio do qual se produz um efeito de que podemos explicar praticamente tudo com nossa pequena bateria de significantes. Isso é reconfortante em um sentido porque temos uma bateria de significantes poderosa, mas oa mesmo tempo gera certo efeito de repetição. Talvez fosse o que clamava Lacan, em determinado momento, a direção de um significante novo, que poderia haver um significante novo. Vocês sabem que a criação de novos significantes traz consequencias objetivas muito difíceis, pois não é fácil ser o criador de um novo significante."

Graciela Brodsky, na conferência 'Um homem, uma mulher e a psicanálise', de 2008, no Rio.

23.5.09

Marília Gabriela para o Jô Soares
- Jô, você já fez análise?
E ele, prontamente:
- Não! Tenho muito medo dos meus mistérios. Não quero descobri-los.

em entrevista desta semana.
por que ela tanto quer saber isso, gente!

21.5.09

"Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. (...)
A certa altura de Guerra e Paz, Tolstói fala nos 'ombros e braços de Helena, sobre os quais se estendia por assim dizer o polimento que haviam deixado milhares de olhos fascinados por sua beleza'. A leitura produz efeito parecido em relação às obras que anima. Lidas com discernimento, revivem na nossa experiência, dando em compensação a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito. Neste caso, o espírito do Ocidente, procurando uma nova morada nesta parte do mundo".

A Ana, querida amiga, me enviou por e-mail, dizendo assim:
olha só o trecho que retirei do livro do Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira - momentos decisivos (escrito entre 1945-1955).É de uma beleza... Veja se interessa postar no Cascos...
um amigo em casa por volta de 23h
vou indo, chegou minha hora, é preciso controlar meus instintos
...
tudo bem, mas ainda é cedo - muito cedo.
o que vai acontecer? passada uma hora de repente vc vai enlouquecer de vez?
não, vou perder meu sapato.

20.5.09

“Recuperação da Adolescência

é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço"

Ana Cristina Cesar

17.5.09

" Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca."

Manuel Bandeira

12.5.09

que a dri achou

"'As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida'”. Desde o dia em que cai aos seus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perde-la. O AMOR É FODIDO, do amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool. Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor."

Xico Sá, no livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo"

maravilha!
achei no blog da dri --->

11.5.09

"penetra surdamente no reino das palavras.
lá estão os poemas que esperam ser escritos
estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura, na superfície intata.
ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
convive com teus poemas antes de escrevê-los.
tem paciência, se obscuros. calma se te provocam.
espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio."

drummond

8.5.09

"Mas se fosse outro momento, se estivesse mais noite, se a praça pudesse liquefazer o cheiro das folhas mais verdes em vapor, se as pessoas e as conversas estivessem mais entorpecidas, se fosse primavera, se fosse possível, ela se aproximaria. Rumando por entre as árvores, colhendo um ou outro graveto no chão, um pouco atrasada nas conclusões, retida no limite da vontade, um tanto nervosa nos dentes e lábios, mordendo frutos imaginários Se fosse certo, se fosse melhor, ela se aproximaria. Lembrou de coincidências vãs, comparou letras iniciais de nomes, se estivesse mais noite, se a praça camuflasse o amor com mais lamparinas e vendedores de flores, se nunca houvesse passado o tempo. Um passo mais rente, a aflição saborosa no perigo de ser vista, olhos baixos, caminhava. No final de um semi-círculo descrito pelo corpo, uma curva inevitável, a relutância e o abandono, como se o gavião fizesse a vítima, a proximidade entre voar e morrer, mais um pouco e ela já queria. Deixou cair os restos de gravetos que as mãos quebraram, seguiu pela única direção que se marcava. Ele a viu. Ela o olhou.

quem escreveu esta beleza foi o Artênius Daniel, amigo querido, aqui.
"Gosto da Feira do Livro. Gosto de estar horas sentado assinando exemplares de pessoas que chegam com um recado, em geral discreto. Gosto de levantar os olhos e ver as pessoas circulando entre os pavilhões, talvez procurando o ser humano que os livros levam dentro. Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas."

Saramago, em seu Caderno.

2.5.09

"Mas ela estava tão ansiosa que se aprontou antes de mim, ficou na porta me esperando em pé. Parecia empinada na ponta dos pés, com os sapatos de salto, e estava muito corada ou com ruge demais. E quando vi sua mãe naquele estado, falei, você não vai. Por quê, ela perguntou com voz fina, e não lhe dei satisfação, peguei meu chapéu e saí. Nem parei para pensar de onde vinha a minha raiva repentina, só senti que era alaranjada a raiva cega que tive da alegria dela. E vou deixar de falação porque a dor só faz piorar."

Chico Buarque, no livro Leite derramado
ai,
ai...