24.10.09

engraçado
a gente sabe quando uma viagem muda a gente desde a partida
desde a decisão
desde a atração

deixo aqui o registro de um texto de Luis Nachbin, que admiro por várias razões
hoje to encantada com a coragem doce dele


'Conexão Nova Iorque – São Francisco

Durante muito tempo eu quis cruzar os Estados Unidos por terra, de ponta a ponta. Tive chances durante os três anos que morei em São Francisco – de 1991 a 1994. Mas, na hora “h”, eu nunca podia: tinha que estudar para uma prova do mestrado, tinha que terminar a edição de um vídeo, tinha obrigações de todo tipo – em geral aumentadas pela minha cabeça.

Amigos foram, mas eu não.

Aí, quase dez anos depois, em 2003, aqui no Rio, a ideia reapareceu. Eu passava por uma fase muito esquisita. Começava o namoro com Ludmila, a minha mulher, mas tinha impulsos para terminar a relação. Queria viajar, queria produzir, mas todos os projetos que eu concebia ficavam no papel. Achava todos fracos. Minha autoexigência não me deixava andar para a frente.

As esquisitices culminaram com o término do namoro com Ludmila, em setembro de 2003.

Fiquei zonzo.

Pensei em um projeto – que tenho até hoje – de gravar em Bangladesh. “Época das monções, está chovendo muito por lá”, raciocinei. E desisti. Percorri todos os meus rascunhos, aqui no computador, e encontrei “o projeto ideal”: um road movie pelos Estados Unidos. Ia começar o outono por lá, as folhas mudam de cor, a luz é ótima para fotografia e até a paisagem combinaria com o meu estado de espírito.

Além do mais, e o mais importante: era um sonho antigo.

Voei para Nova Iorque, aluguei um carro e iniciei o meu road movie pelo Marco Zero – onde ficavam as torres gêmeas do 11 de Setembro. No início, me sentia eufórico. Um amigo e eu nos revezávamos ao volante numa média de 500 quilômetros por dia. Quero dizer, era dia sim, dia não. Um dia na estrada direto, no outro gravando em alguma cidade escolhida, e assim por diante.

O road movie ficou forte, na minha opinião. É autêntico, é contundente, tem uma montagem interessantíssima – criação do meu amigo Alexandre Rocha. Faltou, apenas, encontrar o final do filme.

Ah: falta exibi-lo.

Enquanto percorre a diversidade de paisagens de um país tão vasto, o documentário discute a guerra ao terror. O governo de Bush filho, ainda no primeiro mandato, recebe os mais variados adjetivos das pessoas que entrevisto. Perto do litoral, é criticado com veemência; já nos rincões, o tom beira a adoração. O que mais me atrai no enredo deste filme é a argumentação para sustentar cada ponto de vista.

Mas a viagem de Nova Iorque a São Francisco não foi prazerosa. A euforia durou pouco. O tédio da estrada pareceu interminável. E eu também me suportava cada vez menos. Dei graças a Deus quando cheguei à costa oeste e reencontrei amigos queridos.

Hoje em dia está muito claro que aqueles milhares de quilômetros representaram o início de grandes transformações na minha vida. Eu era um emaranhado ambulante de dúvidas: não sabia o que fazer das viagens, que tipo de documentários queria produzir, onde eu gostaria de exibir, como queria me comunicar. Ao mesmo tempo, me via “com a faca e o queijo na mão”.

Não sabia sequer por que tinha terminado com Ludmila. Nem como reconquistá-la.

Voltei ao Brasil e intensifiquei as minhas sessões de análise. Me sentia pirado e sozinho.

Até que, em abril de 2004, recebi um telefonema do Futura. Nascia o Passagem. Foquei.

E, depois de várias tentativas frustradas, Ludmila e eu também encontramos uma onda harmônica nova. Foi realmente incrível. De repente, os problemas desapareceram. É que eu havia aprendido a lidar com eles. Amor de verdade, eu sempre soube que sentia por ela. A “ficha” caiu.

Os Estados Unidos acabaram rendendo oito episódios do Passagem, em 2005. E agora também temos o breve vídeo “A visão deles”, aqui no site.

A conexão Nova Iorque – São Francisco continua me atraindo. Da próxima vez, irei na companhia de Ludmila e Cecília.

Provavelmente de avião.'

2 comentários:

Gui disse...

Bom na transmissão (tanto imagens quanto idéias) e bom de coração. Quer mais o quê?

Bjos

Dri disse...

Achei tão lindo o texto...