30.5.11

firulas



decote lindo, pra guardar
sonhei costurar este vestido
em mim
Senhas

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto (2x)

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem (2x)

Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem (5x)

Adriana Calcanhoto
O milagre das folhas
Clarice Lispector

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí¬-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

23.5.11

Caio Fernando Abreu
cita
eu re-cito:

"Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta: [...]
Não.... neste espaço que ainda resta
ponha uma cadeira vazia."

Cecília Meireles: 'Encomenda'

19.5.11

essencial

Viajar
e recomeçar muitas vezes
Viajar mais
e perder o fio
Perder a meada
Retomar o caminho

Viajar porque é preciso
Que na viagem se tem muito a navegar

Não esta navegação
conectada

A antiga
Que se orienta pela maré,
pela lua,
pelo corpo
Pelo movimento da vida

Vajar mais
pra saber
que a essência
É não ser essencial

Porque não se é
Se é único
no maximo
Mas não essencial
Essência é coisa sem corpo
Só é

Isso sim,
essencial

18.4.11

"o presente

... amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."

Clarice Lispector

16.4.11

"ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."

Manuel Bandeira

8.4.11

"Quanto ao entusiasmo, creio, mal‐entendidos proliferam. Mais que qualquer emoção, que nunca é feita para durar, ele não deve ser pensado na permanência, pois só existe, segundo Lacan, em função de um momento de passagem. Entusiasmo é momento, não é estado."

Marcus André Vieira

31.3.11

"PASSAGEM DAS HORAS

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero."

Alvaro de Campos

Uma lembrança da 'Bethania e as palavras'...

27.3.11

"Eu aguardo. Mas não espero nada"

Jacques Lacan

26.3.11



um achado (!) aqui

24.3.11

"...eu falo sem saber. Falo com o meu corpo, e isto, sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei. É aí que chego ao sentido da palavra sujeito no discurso analítico.O que fala sem saber me faz eu, sujeito do verbo"
Jacques Lacan, Seminário 20, p.161

21.3.11

"o amor são fogos que se acendem
Sem artifícios"

Marina Lima
Li que uma pessoa era especialista em criar looks monocromáticos.
ser especialista é mesmo uma des-função

26.2.11

"Parece que nesta, questionando, questionamos mais o que podemos questionar, mais do que o poder de questionar permite, além portanto, da existência da questão. Não acabaremos nunca com a questão, não porque ainda haja muito a questionar, mas porque a questão, nesse desvio da profundidade que lhe é próprio - movimento que nos desvia dela e de nós -, nos põe em contato com o que não tem fim."

Maurice Blanchot,
nA conversa infinita
"Para Freud a mulher era um sujeito que nada e ninguém poderia satisfazer no inconsciente, a mulher era, por excelencia, o sujeito insaciável. Então, para tratar de preencher essa falta - que faz medo a todos e às mulheres também - damos às mulheres crianças. Damos crianças às mulheres para acalmá-las."

Miller
"... entende-se a importancia de recompor um Outro, um grande Outro, para os analisados. É a questão institucional em psicanalise, que tem seus fundamentos no clínico. É esencial recompor um Outro, um lugar do Outro para os analisados. Sem esse Outro sob medida, tornam-se loucos os analisados. É dizer que, sem o Outro, podem imaginar serem eles mesmos o Outro."

Miller
(no seminário publicado A lógica na direção da Cura. Abaixo tb)
"... no cinismo, o sujeito vive no coração de seu ser, como se o Outro não fosse senão um semblant. São perigosos esses tipos, mas não quando são como Diógenes. Diógenes é um traumatismo para a cidade grega, mas não faz mal a ninguém. Os perigosos são os cinicos com poder"

Jacques Alain Miller

25.2.11

"Tenho que adaptar a melodia ao meu jeito de cantar"

Billie Holiday, 1939


:)