24.5.10

Porque eu tomo emprestado do mundo irmãos de coração
e porque me sinto no direito de amar sem condição
por que guardo lembranças e frases e recortes aqui como fiz com agendas e caixas
por que quero o amor além da lembrança
em tempo real

Ainda que só-depois seja o tempo
do amor real que busco

ou que encontro?
;)

"Vou além: aproveito para deixar uma singela homenagem a uma pessoa que até hoje passa pela minha vida deixando marcas e me ensinando o que é o encontro. Ela concretamente não diz, mas me faz escutar: a amizade passa, sim, pelo amor. Hoje é seu dia, Jô. Continuo desejando-lhe as melhores coisas do mundo.

"Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido advinhar vagamente".
Clarice Lispector,'O Ovo e a Galinha')

do Gui, aqui."

18.5.10

"Uma Palavra

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra"

Chico Buarque
Passatempo

O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.

(Carlos Drummond de Andrade)

achei no blog do gui, postagem antiiiga...

15.5.10

"Tempo

será que a cabeça
tem o mesmo tempo que a mão?
o tempo do pensamento,
o tempo da ação

será que o teto tem o mesmo tempo que o chão?
o tempo de decompor…
o tempo de decomposição

será que o filho
tem o mesmo tempo que o pai?

o tempo do nascimento,
crescimento, envelhecimento,
um momento
um momento

o homem pensa que faz
a guerra, a paz
enquanto o homem pensa
o tempo se faz
o homem pensa que é
alegre, triste
enquanto o tempo passa
o homem assiste
como matar o tempo
como matar o tempo…"


Arnaldo Antunes e Paulo Miklos

11.5.10

"Eu Vi o Rei

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar

Um rei assim
Que não escuta bem
Que adora luz
Mas não vê ninguém
Prefere olhar
O horizonte, o céu
Longe daqui
é tudo seu...

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar

Seu sangue azul
Ninguém diz de onde vem
De que sertão
De que mar, que além
E para nós
Ele jamais se abriu
Só uma vez
Quando partiu

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar

Um rei assim
Cultiva solidão
Sombria flor
No coração
E claro é
Que o pêndulo do amor
Às vezes vai
Até a dor

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar

Devo dizer
Que eu não sofri demais
Mas devo dizer
Que acordei
Mesmo sem ser
Tudo que eu imaginei
Devo dizer
Que eu o amei

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar"

Antonio Cicero
aqui muda de tom
"Psia é feminino

de psiu;

que serve para chamar a atenção

de alguém, ou para pedir

silêncio.

Eu berro as palavras

no microfone

da mesma maneira com que

as desenho, com cuidado,

na página.

Para transformá-las em coisas,

em vez de substituirem

as coisas,

Calos na língua; de calar.

Alguma coisa entre a piscina e a pia.

Um hiato a menos."
Arnaldo Antunes

postado por Aline

10.5.10

"A lua suja de nuvens surja nua de nuvens um dia." (Arnaldo Antunes)
Postado por Aline

9.5.10

Adoreeei o trabalho desta moça, Raquel Schembri:

(wish you wish)


(ela e o zezão)

Parece que há uma exposição dela este mês no palácio das artes
deve ser muito legal. o flickr é ótimo.
"Dos Três Mal Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte"

João Cabral de Melo Neto
com o Cordel Do Fogo Encantado, aqui
o gui indicou no blog dele e eu fui lá
encontrei também um trecho legal:

"Preciso entrar com certa ordem no que digo, e dizer de novo, vê se me entendes: ele não se afasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo."


Caio Fernando Abreu

6.5.10

"Gracias A La Vida

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida"

violeta parra

4.5.10

“A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios no plural. Sim, porque não há um único silêncio.E todo o silêncio é música em estado de gravidez.Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
Mia Couto

Nossa, Mia Couto é bonito demais.
Uma parte deste trecho achei neste site que me interessou
a outra remendei com a companhia das letras

enquanto não adquiro meu exemplar. Hoje me dou o segundo presente de aniversário, será este: "Antes de nascer o mundo"
:)

30.4.10



Um viva as restaurações da obra do Profeta Gentileza - que começaram hoje - nas ruas do RJ
eu amo o bruno mazzeo. é a unica pessoa da tv brasileira que me faz rir facil hoje em dia.
para quem também gosta, fica aí um texto do blog dele sobre as ditas celebridades e sobre exposição, e sobre falta de noção, e este ambiente em que toda a sorte de ciladas compoem o dia a dia

"Escrito em:22/2/2010

ALGUÉM FALOU DO QUE OUVIU DE ALGUÉM QUE OUVIU DE ALGUÉM QUE DISSE TER OUVIDO ALGUMA COISA SOBRE MIM

Não sou de escrever carta pra jornal. Não tô falando de carta pra “seção de leitores”, isso já fiz muito, antes da invenção do blog. Digo que não sou de escrever carta para rebater alguma coisa escrita sobre mim. Não que nunca tenha tido vontade, mas a preguiça é maior, o valor que eu dou é menor, então fica por isso mesmo. A única experiência da qual me recordo foi essa. Uma frase dita durante uma palestra na PUC que, colocada fora do contexto, me deixou numa situação indelicada com o colégio onde estudei parte da adolescência. Pelo carinho que sinto pela instituição e em nome dos bons tempos, fiz questão de me retratar. Escrevi um texto aqui mesmo e falei com o jornalista que, gentilmente, escreveu nova nota corrigindo. Mas em relação a fofocas, notícias (mesmo que às vezes incompletas ou falsas) e – muito menos – criticas... não. Faz parte do jogo. Já fui elogiado, já fui criticado, já concordei, já discordei... Tô na chuva pra me molhar.

Tenho, inclusive, um relacionamento super respeitoso – para não dizer simpático – com a imprensa. Mesmo que me veja aqui ou ali em situações que eu nem considero notícia, fico amarradão por estar tendo espaço em veículos por mim admirados como Rolling Stone e Playboy, cadernos de cultura de jornais, etc, além dos próprios veículos, digamos, mais “populares” (botei aspas pois não tenho certeza do rótulo com os quais são classificados). Amanhã, por exemplo, estarei recebendo o pessoal da Quem para responder às perguntas dos leitores. Isso tudo, claro, desde que eu esteja num momento de “ter o que dizer” em relação aos trabalhos e a carreira, como é o caso agora. Vamos dizer que “me dou bem com os jornalistas e com a imprensa”. E acho que a recíproca é verdadeira.

Porém... ah, porém...

Sábado ultimo uma repórter me perguntou algo tipo “como você está se sentindo agora que é uma celebridade?”. Não exatamente com essas palavras (agora não vou eu distorcer!), mas a ideia era essa. Perguntou como eu me sentia agora que vinha sendo fotografado na noite, na praia, e aquela coisa toda. Aproveitei para responder algo parecido com o que escrevo agora aqui. Dessa vez, lógico, muito mais detalhadamente.

Tá preparado? Então vamos lá:

Eu não sou uma celebridade! Sou um artista. Por mais clichê que isso possa parecer para um leigo. Vamos parar, jornalistas e leitores, de confundir as coisas. O título “celebridade” deu uma desvirtuada e alguma coisa ficou fora da ordem. Celebridade é Paris Hilton, só pra dar um exemplo. É Ângela Bismarchi. Não vamos confundir o cara ser famoso ou ter um trabalho público com o cara ser uma “celebridade”. Pode até ser que tenha sido essa a ideia quando a palavra foi criada. Então que façamos a diferenciação o mais rápido possível.

Não estou aqui criticando as pessoas citadas, até porque muitas delas me divertem. Vez ou outra escrevo posts ou brinco no Twitter, leio o Ego, acho que algumas pessoas são realmente curiosas e/ou engraçadas, como, sei lá, Narcisa Tamborideguy, David Brazil, alguns ex-BBBS, em outros tempos Chiquinho Scarpa, sei lá mais quem. Temos muita gente que cumpre bem sua função de celebridade. Só estou dizendo que eu – Bruno, também conhecido pela alcunha de Bruno Mazzeo - não sou um desses. Talvez até seja esse o motivo de eu me constranger. Falo por mim porque o blog é meu. Na verdade acho que artista - agora que mudaram a definição - não é celebridade. Madonna, antes de ser "celebridade" é uma artista! Uma profissional e tanto! Já Jesus Luz...

A verdade é essa – e eu disse pra repórter - que me sinto constrangido a cada vez que me vejo nessas situações. Não fico exatamente puto, indignado, porque estou aprendendo a conviver com isso e o papo aqui não é “minha imagem” e patati-patatá. Fico envergonhado simplesmente porque acho cafona. Alguns colegas gostam, outros estão cagando e andando, eu simplesmente fico envergonhado. Espero que nunca me vejam fazendo o dedinho pro paparazzo, apesar de não criticar quem faz. Mas não tenho como deixar de achar patético – por exemplo – aquele gordinho que fica filmando e provocando os artistas, acho que no SuperPop. E falo sem birra, porque nunca fui “vítima” dele. Aliás, nem sou dos mais “vigiados”. Pelo contrario, sou peixe pequeno nesse cardume do Sushi Leblon. Na salada do Celeiro eu seria no máximo um tomatinho cereja.

Não me incomodo e nunca me neguei a tirar foto quando estou em algum evento, show, porta de festa. Mas acho desagradável, sim, ver foto do meu filho, tirada de longe, às escondidas. Não acho justo. Ainda mais se tapam os olhos protegendo os “de menor” que se envolveram em crimes. Será que os jornalistas das páginas policiais são mais respeitosos? Não acho que seja por aí. Porque já fui fotografado num shopping, meu filho com o uniforme do colégio e eu fui dar um toque no fotografo, o alertei do risco que isso seria no mundo violento que a gente vive. Ele entendeu, a foto foi deletada e nunca publicada. E nada saiu. E nada mudou na vida de ninguém. O mesmo que acontece quando o fotógrafo não é visto e a foto sai. Nada muda, porque esse tipo de coisa não acrescenta à vida de ninguém.

Dia desses li a noticia de que Dani Winits tinha vencido alguma causa (não sei detalhes) contra algum fotógrafo. No mesmo dia vi uma entrevista do Pedro Cardoso no “Sem Censura”, da Leda Nagle, onde ele se mostrava radicalmente contra todo esse circo. E no meio do seu discurso, uma frase que me chamou mais atenção: “Sair no site que eu caminhei na praia com minha filha não faz um país melhor”.

Coincidentemente Pedro citou como exemplo de coisa que – esta sim! – poderia acrescentar culturalmente: o tal ciclo de palestras/debate do qual participamos juntos na PUC, o tal da minha frase truncada sobre o colégio. Um evento desse porte só numa coluna de um jornal. Bem menos do que a ida da Nana Gouveia à praia semana passada.

Pois eu já ia escrever sobre a questão celebridade x artista quando tudo se juntou: a fofoca x as frases colocadas fora do contexto.

Todo esse meu blá-blá-blá, minha ideologia verbalizada para a repórter, foi resumida a uma única frase. Uma! Ou nem isso: um trecho dela. E – pior! - colocado num site junto a uma fofoca já old fashion, e sobre a qual jamais comentei ou vou comentar. Fiz todo um discurso, mostrei minha posição em relação a uma situação como um todo e usaram ilustrando um fato específico! Fato que sequer chegou a ser comentado por mim ou pela repórter!

Não que eu esteja magoado, negando, confirmando, especulando, longe de mim. Nem que queira dar alguma opinião sobre esse ou algum outro fato. Mas acabou servindo. Foi melhor me inspirar nesse exemplo ralo, que nada interfere na minha vida, do que esperar alguma coisa que realmente me deixe em maus lençóis. Já soube de colegas que deixaram de se falar por causa de uma nota mal colocada. Ou uma colocação mal notada. E eu não quero passar por isso. Gostaria muito que quando dessem um Google no meu nome viessem materias sobre meus programas, filmes, peças, livros...

Não é um discurso radical, não é uma coisa emblemática, não quero liderar movimento algum contra alguém, nem criar inimizades. Juro! Já passei da fase de reclamar que o TV Fama foi cobrir a estreia da minha peça e só falou do cantor que apareceu pra assistir com a nova namorada. Rancor zero. É apenas uma coisa que está aqui dentro e, se alguém tem que falar de algum sentimento pessoal, que seja eu mesmo. Posso até falar sobre isso em público. Mas quando eu quiser. Artistas e esse tipo de mídia podem até precisar mesmo conviver. Mas talvez seja hora de discutir a relação.

Aos meus leitores e (possíveis) fãs, posso garantir que jamais vão me ver pagando mico, tipo fazendo um tour pela minha casa, nem tomando champagne na banheira, nem posando com um poodle no jardim. Repito: nada contra quem faz. Até me divirto vendo. Só não faz parte do meu show.

Um dia eu vou na Marília Gabriela e aí vou poder falar mais sobre isso.


PS: O título foi tirado de uma música do Paulinho Moska. Um de quem a imprensa poderia falar mais."

Bruno Mazzeo - que vai mesmo na Marilia Gabriela esta semana
ah, e o rui e a vani ainda me fazem rir também. rsrs

28.4.10

ultima

"A mulher não decide tudo de uma vez, mas nunca deixa de decidir. (...)"
fabricio carpinejar
"Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo."

Fabricio Carpinejar
"Quando minha namorada toma iogurte, não aceita que acabou.

Raspa a superfície com a colher, gira pelos contornos, arremata as sobras da tampa. Confesso que me enerva um pouco, como alguém pressionando o botãozinho da caneta sem parar.

Sua investigação não termina com os dedos. Coloca sua pupila no interior da embalagem, tal luneta. Faz um bigode nos cílios. Sua aproximação é extravagante. Já temo que vá diminuir e sumirá de repente pelas bordas.

O caso é que ela não confia na aparência, precisa conferir; olhar por dentro à procura de um fundo falso. Toda manhã é igual. Nem com parede de plástico, se aquieta. Continua fuçando.

O que me põe a concluir que Cínthya é muito diferente de mim. Incrédula. Totalmente cética. Ardo de ansiedade e ela esfria a conversa em desconfiança. Estarei constantemente me antecipando e ela compreenderá a antecipação como cobrança.

Não tem jeito, Cínthya odeia ser pressionada, eu odeio que não me dê resposta na hora. Qualquer ato de delicadeza e entra em pânico, prevendo meu controle da retribuição. Qualquer indelicadeza e entro em pânico, com medo de sua incompreensão.

Mesmo quando reajo impulsivo, articula uma lógica maldosa por detrás da atitude. Ela me considera tão maquiavélico que me sinto ingênuo.

Não se entregam fácil essas mulheres de Constantina. Ela não deseja nem ficar muito junto para não sofrer. Supõe que será enganada. Seu modo de se defender é me espantar. Às vezes consegue.

Diz que não sou o centro do seu mundo; pois não entende que não quero ser o centro do seu mundo, e sim seu bairro mais populoso.

Chega a afirmar que tento dominá-la, imagina?

Pior que é verdade, tento dominá-la, mas com toda elegância.

Sabe o que me irrita sinceramente no iogurte? Dificilmente ela concorda comigo, obcecada em preservar sua independência. Existem momentos que nem eu concordo, sem problema. Mas sempre? É demais, não consigo respirar, volta minha asma. Vejo que estou puxando a coberta para o meu lado, a cena pode significar o contrário.

Talvez raspe a tampa e analise o interior por excesso de esperança. É como se me admirasse do outro lado reparando em sua rima labial.

Vem a sensação de que ela seria a minha letra caso escrevesse com a mão esquerda. Não se contenta com o que é permitido, intensifica o barulho da colher como uma extensão dos dentes, disposta a desafiar os limites e provar que os contrários se completam.

Será?

Ao pegar a embalagem e botar no lixo, acho que não é nada disso, viajei novamente.

Encontro chateação onde aparece somente fome. E o que ela gostaria era de repetir o pote, sem nenhuma filosofia."
fabricio carpinejar
gosto muito!

27.4.10

" A vida se me é, e eu não entendo o que digo. Então adoro."
Clarice Lispector

16.4.10

a ultima do cauã, juro
despedindo.

"Qual é sua ideia de felicidade máxima?
Não existe felicidade máxima. Acho que ninguém sente isso. Você já sentiu felicidade máxima?"

vão ver lá todo o ensaio, aí ao lado, na tpm