"Temos, permito-me dizer, um defeito - sempre tratamos de colocar o novo a partir do já sabido, enxertar o que não se entende dentro das coordenadas clássicas - por meio do qual se produz um efeito de que podemos explicar praticamente tudo com nossa pequena bateria de significantes. Isso é reconfortante em um sentido porque temos uma bateria de significantes poderosa, mas oa mesmo tempo gera certo efeito de repetição. Talvez fosse o que clamava Lacan, em determinado momento, a direção de um significante novo, que poderia haver um significante novo. Vocês sabem que a criação de novos significantes traz consequencias objetivas muito difíceis, pois não é fácil ser o criador de um novo significante."
Graciela Brodsky, na conferência 'Um homem, uma mulher e a psicanálise', de 2008, no Rio.
24.5.09
23.5.09
21.5.09
"Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. (...)
A certa altura de Guerra e Paz, Tolstói fala nos 'ombros e braços de Helena, sobre os quais se estendia por assim dizer o polimento que haviam deixado milhares de olhos fascinados por sua beleza'. A leitura produz efeito parecido em relação às obras que anima. Lidas com discernimento, revivem na nossa experiência, dando em compensação a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito. Neste caso, o espírito do Ocidente, procurando uma nova morada nesta parte do mundo".
A Ana, querida amiga, me enviou por e-mail, dizendo assim:
olha só o trecho que retirei do livro do Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira - momentos decisivos (escrito entre 1945-1955).É de uma beleza... Veja se interessa postar no Cascos...
A certa altura de Guerra e Paz, Tolstói fala nos 'ombros e braços de Helena, sobre os quais se estendia por assim dizer o polimento que haviam deixado milhares de olhos fascinados por sua beleza'. A leitura produz efeito parecido em relação às obras que anima. Lidas com discernimento, revivem na nossa experiência, dando em compensação a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito. Neste caso, o espírito do Ocidente, procurando uma nova morada nesta parte do mundo".
A Ana, querida amiga, me enviou por e-mail, dizendo assim:
olha só o trecho que retirei do livro do Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira - momentos decisivos (escrito entre 1945-1955).É de uma beleza... Veja se interessa postar no Cascos...
20.5.09
17.5.09
" Namorados
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca."
Manuel Bandeira
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca."
Manuel Bandeira
12.5.09
que a dri achou
"'As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida'”. Desde o dia em que cai aos seus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perde-la. O AMOR É FODIDO, do amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool. Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor."
Xico Sá, no livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo"
maravilha!
achei no blog da dri --->
Xico Sá, no livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo"
maravilha!
achei no blog da dri --->
11.5.09
"penetra surdamente no reino das palavras.
lá estão os poemas que esperam ser escritos
estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura, na superfície intata.
ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
convive com teus poemas antes de escrevê-los.
tem paciência, se obscuros. calma se te provocam.
espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio."
drummond
lá estão os poemas que esperam ser escritos
estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura, na superfície intata.
ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
convive com teus poemas antes de escrevê-los.
tem paciência, se obscuros. calma se te provocam.
espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio."
drummond
8.5.09
"Mas se fosse outro momento, se estivesse mais noite, se a praça pudesse liquefazer o cheiro das folhas mais verdes em vapor, se as pessoas e as conversas estivessem mais entorpecidas, se fosse primavera, se fosse possível, ela se aproximaria. Rumando por entre as árvores, colhendo um ou outro graveto no chão, um pouco atrasada nas conclusões, retida no limite da vontade, um tanto nervosa nos dentes e lábios, mordendo frutos imaginários Se fosse certo, se fosse melhor, ela se aproximaria. Lembrou de coincidências vãs, comparou letras iniciais de nomes, se estivesse mais noite, se a praça camuflasse o amor com mais lamparinas e vendedores de flores, se nunca houvesse passado o tempo. Um passo mais rente, a aflição saborosa no perigo de ser vista, olhos baixos, caminhava. No final de um semi-círculo descrito pelo corpo, uma curva inevitável, a relutância e o abandono, como se o gavião fizesse a vítima, a proximidade entre voar e morrer, mais um pouco e ela já queria. Deixou cair os restos de gravetos que as mãos quebraram, seguiu pela única direção que se marcava. Ele a viu. Ela o olhou.
quem escreveu esta beleza foi o Artênius Daniel, amigo querido, aqui.
"Gosto da Feira do Livro. Gosto de estar horas sentado assinando exemplares de pessoas que chegam com um recado, em geral discreto. Gosto de levantar os olhos e ver as pessoas circulando entre os pavilhões, talvez procurando o ser humano que os livros levam dentro. Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas."
Saramago, em seu Caderno.
Saramago, em seu Caderno.
6.5.09
2.5.09
"Mas ela estava tão ansiosa que se aprontou antes de mim, ficou na porta me esperando em pé. Parecia empinada na ponta dos pés, com os sapatos de salto, e estava muito corada ou com ruge demais. E quando vi sua mãe naquele estado, falei, você não vai. Por quê, ela perguntou com voz fina, e não lhe dei satisfação, peguei meu chapéu e saí. Nem parei para pensar de onde vinha a minha raiva repentina, só senti que era alaranjada a raiva cega que tive da alegria dela. E vou deixar de falação porque a dor só faz piorar."
Chico Buarque, no livro Leite derramado
ai,
ai...
30.4.09
voltei da loja de livros meio torta de um lado. quanto mais me aproximo deles, mais vai ficando nítido o quanto a relação das pessoas com os livros é singular. não particular. eu disse singular. e não digo da escolha que é mais obvia, mas o modo como cada um se relaciona, toca, descobre, experimenta o livro.. muito doido como quando atentos a gente percebe a dimensão da solidão mais corriqueira. tão clara quanto fora de foco.
olha o que achei nas linhas - pra lá do meio - de um dos livros que acabo de trazer da loja:
"Fora-do-tempo
Os flocos giram ao redor do globo.
Diante dos olhos da minha memória, em cima da escrivaninha de Mademoiselle, minha professora até a classe dos maiores, a do sr. Servant, se materializa a pequena bola de vidro. Quando nos comportávamos bem, tínhamos o direito de virá-la e segura-la na palma da mão até a queda do último floco ao pé da torre Eiffel cromada. Eu não tinha sete anos e já sabia que a lenta melopéia das pequenas partículas algodoadas prefigura o que ressente o coração durante uma grande alegria. A duração desacelera e se dilata, o balé se eterniza na ausência de choques e, quando o último floco pousa, sabemos que vivemos esse fora-do-tempo que é a marca das grandes iluminações. Em criança, volta e meia eu me perguntava se me seria dado viver instantes semelhantes mantendo-me no centro do lento e majestoso balé dos flocos, quando era arrancada do sombrio frenesi do tempo.
Será isso sentir-se nua? ..."
(do livro A elegância do ouriço, da escritora francesa chamada Muriel Barbery, nascida em 1969.)
Simone, que trabalha na Ouvidor da Savassi e é uma graça de pessoa, me disse sentir que pela primeira vez - (que olhasse bem), ela estava com 46 anos - poderá acompanhar a trajetória de uma escritora contemporânea arrebatadora. Disse que Duras e Clarice não contavam. Não estão neste tempo. Disse das personagens, da escrita, de algo que as mulheres precisassem ler.
parecia mesmo encantada.
Obediente que sou destas orientações, aqui estou diante da Elegância do ouriço.
na loja entrei mesmo pra comprar outros dois:
Leite derramado (o novo livro do Chico Buarque) e A alma encantadora das ruas (do João do Rio).
parece bom, não?
=)
olha o que achei nas linhas - pra lá do meio - de um dos livros que acabo de trazer da loja:
"Fora-do-tempo
Os flocos giram ao redor do globo.
Diante dos olhos da minha memória, em cima da escrivaninha de Mademoiselle, minha professora até a classe dos maiores, a do sr. Servant, se materializa a pequena bola de vidro. Quando nos comportávamos bem, tínhamos o direito de virá-la e segura-la na palma da mão até a queda do último floco ao pé da torre Eiffel cromada. Eu não tinha sete anos e já sabia que a lenta melopéia das pequenas partículas algodoadas prefigura o que ressente o coração durante uma grande alegria. A duração desacelera e se dilata, o balé se eterniza na ausência de choques e, quando o último floco pousa, sabemos que vivemos esse fora-do-tempo que é a marca das grandes iluminações. Em criança, volta e meia eu me perguntava se me seria dado viver instantes semelhantes mantendo-me no centro do lento e majestoso balé dos flocos, quando era arrancada do sombrio frenesi do tempo.
Será isso sentir-se nua? ..."
(do livro A elegância do ouriço, da escritora francesa chamada Muriel Barbery, nascida em 1969.)
Simone, que trabalha na Ouvidor da Savassi e é uma graça de pessoa, me disse sentir que pela primeira vez - (que olhasse bem), ela estava com 46 anos - poderá acompanhar a trajetória de uma escritora contemporânea arrebatadora. Disse que Duras e Clarice não contavam. Não estão neste tempo. Disse das personagens, da escrita, de algo que as mulheres precisassem ler.
parecia mesmo encantada.
Obediente que sou destas orientações, aqui estou diante da Elegância do ouriço.
na loja entrei mesmo pra comprar outros dois:
Leite derramado (o novo livro do Chico Buarque) e A alma encantadora das ruas (do João do Rio).
parece bom, não?
=)
26.4.09
Feist de novo
porque é minha cantora preferida, dentre as contemporaneas.
tem a ver com medida, com som, com estilo
adoro!
25.4.09
- Você tem por hábito ler a Biblia?
Assim me abordou Aparecida, na porta da Gula do Lobo, de onde tinha saído para fumar um cigarro.
Contei a ela que tinha a Bilbia, mas habito era demais. Aparecida era seu nome e se não era, ela não podia ter escolhido melhor. Contou que mesmo com escoliose era feliz. Mesmo com tanta dor nas pernas, era feliz. O fato de rezar para os que estavam pior a tornou feliz. Havia os que não podiam, ainda que quisessem, tomar banho sozinhos; os que não conseguiam andar ou se levantar.
E ela então me contou que já estava lá, na palavra de Deus. Em Timóteo - segundo - que ao homem, nos últimos dias, faltaria auto controle, faltaria bondade e que o amor da maioria esfriaria.
- E hoje, minha filha, quéde amor? Já tava lá, na palavra de Deus.
Falamos sobre o homem que segue a palavra, a palavra que sabe, a covardia ... de pena não houve palavra.
Só depois contou que não assinava o nome. e que aprendeu desde cedo: ouve e guarda.
E assim me recomendou que fizesse.
Ainda não voltei à Biblia.
Assim me abordou Aparecida, na porta da Gula do Lobo, de onde tinha saído para fumar um cigarro.
Contei a ela que tinha a Bilbia, mas habito era demais. Aparecida era seu nome e se não era, ela não podia ter escolhido melhor. Contou que mesmo com escoliose era feliz. Mesmo com tanta dor nas pernas, era feliz. O fato de rezar para os que estavam pior a tornou feliz. Havia os que não podiam, ainda que quisessem, tomar banho sozinhos; os que não conseguiam andar ou se levantar.
E ela então me contou que já estava lá, na palavra de Deus. Em Timóteo - segundo - que ao homem, nos últimos dias, faltaria auto controle, faltaria bondade e que o amor da maioria esfriaria.
- E hoje, minha filha, quéde amor? Já tava lá, na palavra de Deus.
Falamos sobre o homem que segue a palavra, a palavra que sabe, a covardia ... de pena não houve palavra.
Só depois contou que não assinava o nome. e que aprendeu desde cedo: ouve e guarda.
E assim me recomendou que fizesse.
Ainda não voltei à Biblia.
23.4.09
27.3.09
Aos que gostam do mar
"A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira." (Mia Couto - "O beijo da palavrinha", por garimpo da Ana Paola)
24.3.09
Porque
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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